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Hillary Clinton em Ancara: arrogância & realidades duras

13 de Agosto de 2012, 21:00 , por Desconhecido - 0sem comentários ainda | No one following this article yet.
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Por Louis Denghien

A visita de Hillary Clinton ao seu fiel Erdogan deu ocasião para um novo conjunto de ameaças e esperanças formuladas de modo muito ambicioso:  trata-se nada menos do que o "pós Assad" ou, mais precisamente, "o dia seguinte após a queda de Assad" que a chefe da diplomacia americana veio preparar com o seu agente de poder regional.

Diplomacia, humanismo & lucidez com geometria hiper-variável 

Para acelerar esta perspectiva, que se faz esperar desde há uns 500 dias até o presente, a secretária de Estado encara nomeadamente a extensão das sanções americanas e aliadas contra a Síria também ao Irão e ao Hezbollah, pois a sra. Clinton acredita detectar "ligações" entre estas três entidades.

Mas a patroa da diplomacia americana foi à Turquia: ela portanto ligou a questão síria à questão turca, via PKK, movimento separatista curdo que ela associou à al-Qaida. À parte o facto de que o PKK e o nacionalismo curdo em geral ter sido encorajado outrora pelos mesmos americanos contra Saddam Hussein e o Irão, a vinda e o desenvolvimento da al-Qaida na Síria é a consequência directa do apoio dos ocidentais – americanos e turcos em primeiro lugar – aos grupos armados do Exército Sírio de Libertação (ESL), militarmente e ideologicamente permeáveis ao radicalismo jihadista. Mas ouçamos o que foi dito por Clinton a respeito: ela se inquieta em "que terroristas do PKK, da al-Qaida ou outros aproveitem a luta legítima do povo sírio pela liberdade para promover seus próprios interesses".

Nós nos inquietaríamos antes em que os Estados Unidos procurem promover o caos e a guerra no Síria, no Líbano e no Irão para "promover seus próprios interesses" geoestratégicos. Interesses de vistas curtas pois tudo o que conseguirão fazer os americanos é reforçar o islão radical salafista , que já vem fazer cócegas na fronteira Sul de Israel. Mas isso é o seu problema e a sua inconsequência diplomática. Poder-se-ia perguntar também à secretária de Estado, se se for ingénuo e tiver tempo a perder, o que ela pensa do nível de legitimidade da luta dos curdos, ou dos xiitas do Bahrein e da Arábia Saudita, sem falar sequer dos palestinos.

A sra. Clinton aproveitou a sua estadia turca para recordar que a política do seu país em relação à Síria repousava sobre "três pilares". A saber: apoio à oposição armada, através de uma ajuda "não letal"; ajuda humanitária e preparação de uma transição política. "Palavras, sempre palavras, as mesmas palavras" desde há meses, e pelo menos uma mentira: mesmo a imprensa americana diz a CIA na Turquia supervisiona a distribuição ao ESL das armas pagas pelo Golfo. Quanto ao aspecto humanitário, trata-se de comprar uma clientela local e, para o país que mais bombardeou povos nestes últimos vinte ano e que sempre apoio potentados absolutos no mundo árabe – de Mubarak ao Abdallah da Arábia – posar como defensor dos fracos e perseguidos.

É verdade que esta visita é também um gesto para com o fiel, ainda que não eficaz e fiável, Erdogan. O qual certamente bem precisa. A Reuters dedicou-lhe em 7 de Agosto um artigo bastante pertinente sobre a viragem de pesadelo que o conflito sírio assume para Ancara: além de uma instabilidade na fronteira Sul, com o desenvolvimento de correntes radicais islamistas que desafiam Ancara até à sua fronteira síria, a Turquia nestas últimas semanas viu delinear-se uma ampliação militar e política da frente curda até a Síria, enquanto no extremo Sudeste do seu território um ou dois distritos caíram muito recentemente sob o controle do PKK. Acrescentemos a isto tensões vivas com a Rússia e o Irão. E ainda, mesmo que o artigo da Reuters não menciona, dificuldades económicas e políticas internas para o governo Erdogan.

Interrogado pela Reuters, um investigador anglo-saxónico instalado em Ancara, Gareth Jenkins, resume assim o impasse ao qual Erdogan e sua equipe conduziram o seu país em apenas doze meses: "Eles realmente não reflectiram. Disseram: "Desembaracemo-nos de Assad", sem realmente pensar naquilo que viria depois". E esta impulsividade, este amadorismo da direcção turca, teve o seguinte resultado, implacavelmente resumido por Jenkins: "Agora os seus dois cenários de pesadelos estão em vias de concretizar-se: a emergência de uma espécie de entidade curda no Norte da Síria que será claramente um trunfo para o PKK e reforçará os curdos da Turquia no seu desejo de autonomia; e uma libanização da Síria com uma longa guerra civil étnica e religiosa com diferentes grupos controlando diferentes regiões".

Sobre este último ponto, digamos que ainda não se chegou lá e que o único meio de conjurar este pesadelo turco seria precisamente uma vitória total e rápida de Bachar! De facto, quando, para o bem dos turcos e dos sírios, o "dia após" Erdogan?

Mais uma vez, poder-se-ia dizer que este é o seu problema – "Júpiter torna loucos aqueles que quer perder" – mas a conduta política dos dirigentes turcos teve as consequências dramáticas que se sabe para os sírios. Mas os turcos, por sua vez, arriscam-se a ter de pagar.

O autismo "holandês"

Da grande patroa ocidental, passemos ao seu "brilhante segundo" – ou terceiro: ao falar nas exéquias da 88ª vítimas militar da absurda guerra ocidental no Afeganistão, François Holland teve de fazer um desvio pela Síria, precisamente a fronteira sírio-jordana onde chegou uma missão sanitária e militar francesa para cuidar não só dos refugiados como também, teve de precisar o sucessor e seguidor de Sarkozy, os "combatentes feridos". François Hollande passa geralmente por homem inteligente, calmo e dotado de humor, mas é forçoso constatar que estas qualidades se evaporam quanto à questão da Síria e da política externa em geral: aí, com o uniforme atlantista – e sionista – o sr. presidente da República Francesa sai-se invariavelmente com os lugares comuns e as mentiras da "linha" americana. Isto é assim e aí está o seu problema: com os seus amigos euro-ocidentais, Hollande, por preguiça e conformismo intelectuais e também por preocupações de política interna, faz uma análise falsa da situação na Síria – e na região. Ele prefere errar com Clinton e Cameron do que acertar com Putin. Má escolha.


Fonte: JMC

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